O trânsito e o sapo


Por Vanderlei Campiotti*

A melhor maneira de se ensinar as pessoas é contando histórias, e aqui vai uma que eu costumava falar: a do sapo. É certo que ninguém gosta de engolir sapos, certo? Em Administração, costumamos dizer que em uma negociação ‘ganha-ganha’, aquela em que as duas partes ficam satisfeitas, só é possível quando o sapo fica na mesa. Isso mesmo, sapo é o problema que está em discussão. Um tenta enfiar o sapo goela abaixo do outro e, quando isso acontece, um sai perdendo. Quando o sapo fica na mesa, as pessoas discutem de forma madura o problema e ninguém engole sapo.
Mas o que isso tudo tem a ver com o trânsito? Fazendo-se uma analogia das duas situações, em nosso dia a dia conseguimos negociar alguns sapos, já outros temos que engolir, não é mesmo? Tem o chefe, o colega do outro departamento, o cliente, o fornecedor, a esposa, os filhos, o gerente do banco e por aí vai. Bom seria se pudéssemos negociar tudo na base do ‘ganha-ganha’. Já que não é possível negociar tudo, podemos escolher o que vamos negociar.
Por outro lado, tem a figura dos estressados, aqueles que negociam pouco, não conseguem priorizar o que vão negociar e acabam engolindo os diversos sapos que citei acima. Mas de novo pergunto: onde entra o trânsito nisso tudo?
Vamos analisar um pouco o comportamento de alguns condutores. Sim, condutor é o conceito correto que devemos utilizar porque abrange todos os veículos conduzidos na via pública, seja de tração humana, animal ou motorizado. As relações no trânsito são impessoais, afinal, raramente encontramos um conhecido no trânsito, salvo o das pequenas e pacatas cidadezinhas do interior. Então, não raro podemos encontrar a tal figura dos estressados.
Pessoas que muitas vezes aproveitam o trânsito para descarregar os sapos engolidos que citei (da esposa, do filho, do chefe, etc.). São facilmente identificáveis pelas buzinadas, arrancadas e freadas bruscas, xingamentos e gestos obscenos. Muitos deles carregando seus filhos e servindo de péssimo exemplo aos futuros condutores. Mas e aí? Onde quero chegar mesmo?

Foto: Divulgação

É preciso aprender a engolir sapos no trânsito

Recomendei em todas as minhas aulas de direção defensiva e se algum leitor tiver sido meu aluno irá se lembrar do seguinte: o trânsito é um dos poucos lugares em que podemos, sim, engolir sapos. Afinal, as relações no trânsito são na maioria das vezes impessoais, como já disse. Aquele condutor que te xinga, faz gesto obsceno, etc., vai passar por você e provavelmente nunca mais você o verá de novo. Então engula esse sapinho. Já o patrão, por exemplo, aquele que te fez engolir um sapo hoje, você o verá de novo amanhã e o ciclo recomeça.
No trânsito, não é possível negociar os sapos, por isso é que devemos agir com educação e cortesia. Nas demais situações é que devemos rever nosso comportamento e, mesmo assim, se continuarmos a engolir os sapos, não é no trânsito que iremos despejá-los. Existem outras formas bem mais cidadãs de fazê-lo. Aliás, cidadania e trânsito devem andar juntos.
Realizo trajeto diário de mais de cem quilômetros e passo pela Raposo Tavares todos os dias. Portanto, sou membro dessa comunidade de condutores. Saio de casa todos os dias com o pensamento voltado para uma relação mais humana e educada no trânsito e espero encontrar pessoas como você, conhecidas ou não, sabendo que poderei tranquilamente engolir um sapo sem despejar os meus – e olha que não são poucos!

(*) Administrador de empresas com pós-graduação em gerência administrativa, instrutor e examinador de trânsito pelo DETRAN. Colaborou especialmente para o Acelera, Raposo!

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