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Acidente fatal na Raposo Tavares

30/04/2010

Por Rodrigo Cozzato

Quinta-feira, 29 de abril. Rodovia Raposo Tavares, 18h15, volta pra casa depois de um cansativo dia de trabalho. Muito trânsito, mais do que o normal. Logo pensei, “pode haver acidente”. Dito e feito. No quilômetro 14,5, sentido interior, quase em frente ao shopping. Havia acabado de acontecer. Um sem-número de motociclistas parados para tentar socorrer o que não havia a ser socorrido.

Parei. Não gostaria de tê-lo feito, mas minha obrigação jornalística me fez parar. Caminhando até o acidentado, diversos rostos transtornados se misturavam ao barulho de escapamentos e buzinas apressadas, gritos, ofensas e outros rostos de motoristas que queriam chegar logo em suas casas.

O primeiro motociclista a falar comigo disse: “Irmão, o cara morreu”. Outro, desesperado: “Olha lá, cara, olha lá. Não é justo, não é justo”. Diante do corpo inerte, um fez o sinal da cruz. Mais um, e mais um, benzeram-se em frente à vítima. No chão, o que há até pouco tempo era um trabalhador voltando pra casa. Sem chance de socorro. Sem ter mais o que fazer.

Ao lado da caminhonete que se envolvera no acidente, o motorista, assustado, olhando ao redor, também sem ter o que fazer. Um agente da CET telefonava sem parar e tentava, sem sucesso, organizar o caótico congestionamento que se formou.

Ouço comentários, boatos, suspeitas. Um fala pra um, que fala pra outro. Um motociclista, que se identificou como o “primeiro a chegar”, disse que a vítima foi fechada pela caminhonete e, ao tentar desviar, se chocou contra o muro, e a cabeça, contra o poste de iluminação. “O cara morreu na hora, meu, na hora. Olha lá como ele tá machucado”, dizia, com voz assustada e com as mãos trêmulas.

A moto, bastante danificada, já estava em pé, 50 metros à frente. No meio do caminho, os tênis da vítima e destroços daquilo que era o seu instrumento de trabalho. Os jeans rasgados denunciavam um corte profundo na perna. O capacete resistiu à pancada, mas transmitiu à cabeça toda a força do impacto.

Foto: Rodrigo Cozzato

Motociclista caído, vítima fatal do trânsito da Grande SP

Veladamente, tiro lições de tudo o que vi e ouvi. Aproveito a oportunidade e consigo conversar com uns quatro ou cinco consortes: “Que tiremos todos nós um exemplo desse acidente. Devemos andar mais devagar, ter mais calma”. Outro esbravejou: “Mas o cara não olhou no espelho pra mudar de faixa!”. Rebato: “Concordo. Porém, se o motoca estivesse mais devagar, teria conseguido frear”. Então, de quem é a culpa? Dizia uma velha canção de Raul Seixas que “É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”. De quem é a culpa? Não sei.

Sei que é preciso apenas paciência e tolerância para sobreviver ao trânsito na Grande São Paulo. Não culpo o motorista nem o motociclista. Se um mudou de faixa, o outro poderia estar mais devagar. Não é possível controlar o que o outro irá fazer, suas atitudes, sua incapacidade de dirigir. Faça, então, sua parte. Dirija com respeito, com sabedoria. Queira voltar para casa. Tenha medo do trânsito, pois temê-lo é respeitá-lo.

Aquele motociclista virou número, estatística, ingrediente no caldeirão da bruxa. Mas que não seja em vão. Que nunca seja em vão. Ele deixou uma mãe esperando em casa, talvez uma esposa, quem sabe um filho.

Não perca nunca a vontade de voltar para casa.